google.com, pub-3723287605272792, DIRECT, f08c47fec0942fa0

De zagueiro a centroavante: França, o artilheiro da várzea!

Facebooktwitterredditpinterestlinkedinmailby feather

Por Lucas Ribeiro

Sábado, 3 de junho de 2017, Paraisópolis, zona sul de São Paulo. No campo do Palmeirinha, o time do Pioneer vai entrando em campo. Com a sua consagrada camisa 9, ele entra lentamente no gramado. Me avista no círculo central e logo vem falar comigo. “Segunda feira eu estou lá, hein. Vamos fazer um dos melhores programas que a rádio já teve. Uma hora e meia não vai dar para nada”, conta rindo.

França com a medalha do título da Copa Kaiser e seu único trofeu de artilheiro da Copa Kaiser (foto: Lucas Ribeiro/FCS)

Segunda-feira, 5 de junho de 2017, Ipiranga, zona sul de São Paulo, Rádio Conectados. Todos os convidados já estão no estúdio, só aguardando o início do programa. Estou na porta da rádio esperando ele chegar. 9h56, faltam quatro minutos para entrar no ar e nada do França. Uma mensagem no whatsapp mostra que ele está próximo. 9h58, começo a ficar preocupado, parece que terei que iniciar o “Resenha FCS” sem ele.

Quando decido entrar para o estúdio, ele encosta o seu Sonata na porta da rádio. Desce apressado, entra correndo na rádio e vai para o seu lugar. 10h, hora de começar o programa. Durante uma hora e meia conversamos sobre as principais histórias da várzea, divertindo os ouvintes e dando muitas risadas.

Programa acaba, hora da foto. Todos se posicionam… foto tirada, agora é hora de ir embora. Todos se despedem, só sobra França na recepção. Entro no estúdio, edito a reprise do programa e logo estou pronto para a partida. Destino: Vila Maria.

Do Ipiranga a Vila Maria, uma viagem pela história de França

Embarcamos no Sonata e logo estávamos indo para a Vila Maria. Cria da zona norte, criado dentro da Escola de Samba “Unidos de Vila Maria”, Eduardo da França Silva, 40 anos, jamais pensou que poderia alcançar um status tão grande no futebol  amador no estado de São Paulo. “A família inteira é da escola de samba. Minha mãe ajuda na confecção das fantasias, minha irmã desfila todos os anos como passista e meu pai foi diretor”, conta França, dono de um dos bares que fica dentro da quadra da escola.

Sim, o menino que teve infância humilde na Vila Maria se tornou artilheiro por onde passou, jogando em várias cidades do estado, entre elas Sorocaba, Santo André, São Bernardo e Diadema, sem contar a capital São Paulo.

Foto: Arquivo Pessoal

Nascido no ano de 1977, Eduardo teve uma infância humilde. “Não passei fome, mas o dinheiro em casa era contado. Pagava o aluguel, água, luz, comida e o gás, só. Não sobrava para mais nada. Eu só ganhava presente no meu aniversário ou no final do ano, quando a empresa do meu pai dava brinquedos para os filhos dos funcionários”, conta França.

Sem vergonha nenhuma ou receio, França vai contando a sua história e não foge das polêmicas. O começo, em uma escolinha de futebol na Vila Maria até chegar na base do Juventus com 12 anos de idade e permaneceu por lá durante 6 anos.

Zagueiro de origem, França foi dispensado com todo o grupo aos 17 anos. Rumou para o Guapira, clube que fica no bairro do Jaçanã, onde se tornou profissional. Ainda passou por Osasco, Francana, Empoli (do Equador) até decidir encerrar a carreia profissional. “Quando voltei do Equador, eu estava desiludido com o futebol. Eu tinha um filho pequeno, a Francana tinha ficado me devendo algumas coisas, então eu decidi largar o futebol profissional e tentar a vida em outra profissão”, conta ele.

O começo na várzea

“Eu já jogava na várzea. Joguei um “Desafio ao Galo” para o Lagoinha [time da Vila Maria] em 92. Em 95, moleque com 18 anos só, fui campeão com o Lagoinha da Copa Botafogo de Guaianases. Eu não tinha noção de nada. Nem comemorar eu comemorei. O resto dos jogadores pulavam, gritavam, alguns choravam e eu quieto, encarando tudo aquilo como se tivesse sido apenas mais um jogo”, relembra França.

Retornado do Equador em 2003, logo arrumou uma equipe para atuar. Logo na primeira equipe que chegou, ele conquistou um dos principais torneios da cidade: Copa Kaiser de Futebol Amador, pela equipe do Riachuelo, da zona norte de São Paulo. “Eu joguei de atacante pela primeira vez na vida. Eu atuava todos os campeonatos na zaga, minha posição de origem. Nesta Kaiser eu joguei de atacante e fui bem. Só que na final tivemos um jogador expulso com 15 minutos do primeiro tempo. Antes do treinador pensar, eu já tinha voltado para a minha posição de origem”, conta aos risos.

Foto: Arquivo Pessoal

Campeão do principal torneio da cidade, França começou a receber vários convites para atuar pelas equipes amadoras da cidade. Resolveu acertar com o Geave.  “Voltei para o Geavi, time da zona norte. Eles acabaram me arrumando um emprego de cobrador, em troca eu atuava pela equipe”.

Gols, fama e dinheiro

O bom desempenho pelo Geave chamou a atenção de outras equipes. Credenciado pelo título da Copa Kaiser em 2003 pelo Riachuelo, França descobriu o campeonato mais lucrativo para os jogadores na época: Divisão Especial de Diadema.

“Diadema era o único campeonato que você recebia luvas. Eram 2… 3 mil reais que você recebia apenas para combinar de jogar o campeonato pela equipe. Fora o pagamento do bicho por jogo”, ele revela.

Em Diadema foram cinco títulos da especial (1 pelo XI Unidos, 1 pelo Eldorado e 3 pelo Água Santa) e quatro vezes artilheiro. Ainda faturou mais duas Copas TV+ pelo Netuno de Diadema, que viria se tornar um clube profissional no futuro.

“Nesta época que eu comecei a fazer dinheiro na várzea. Era uma média de R$ 1500,00 por final de semana, juntando todos os times que eu jogava”, revela França.

Copa Kaiser e a consagração

Depois de disputar e ganhar a Kaiser 2003, França jogou no Geave de 2004 a 2007. A partir de 2008, ele viria a disputar quase todas as semifinais da principal competição da cidade, com exceção de 2012.

“2008 e 2009 disputei pelo Leões da Geolândia, perdemos os dois anos nas semifinais. Em 2010 cheguei no Pioneer. Fomos campeões invictos. 2011, ainda pelo Pioneer, perdemos na semifinal para a Turma do Baffô. Em 2012, caímos na segunda fase, na minha despedida do Pioneer. 2013 e 2014, no Napoli [da Vila Industrial], perdemos mais duas semifinais, mas na primeira eu não joguei, porque estava suspenso”.

Foto: Arquivo Pessoal

A Copa Kaiser acabou em 2014. França, um dos maiores artilheiros da história da competição, não sabe ao certo o número de gols que marcou em nove edições (2004, 2005 e 2006 a Kaiser foi substituída pela Copa Metropolitana). “Juntando tudo, Kaiser, Metropolitana… Tenho mais de 100 gols, fácil. Só no Pioneer foram 51, todos eles na Copa Kaiser”, se gaba o centroavante.

Transação “mais cara” da história da várzea

Ao trocar o Pioneer pelo Napoli em 2013, França ficou famoso na cidade por ter sido a transferência mais cara da história varzeana. Não, não existe pagamento de um clube para outro na várzea, somente para o jogador. Por três anos de contrato, França teria sido agraciado com um Veloster, lançamento da Hyundai na época. O carro valia R$ 75 mil.

“Essa é uma grande mentira. O que aconteceu foi o seguinte: meu pai ganhou um bilhete na loteria e me deu o dinheiro para comprar o Veloster. Eu tinha um Fiat Stilo, que meu pai quitou e eu dei de entrada no Veloster. Com um dinheiro que eu tinha guardado, eu quitei o valor restante. Por isso que todos pensam que eu ganhei um carro, mas não foi isso. No Napoli, o acordo foi R$ 5 mil do Pelé (presidente do Napoli) mais R$ 5 mil do Sacadura (equipe de Santo André) de luvas para eu jogar pelas duas equipes. Eles dividiram o custo para eu atuar, como fazia o Pioneer e o Água Santa antes”, revela França.

Bad Boy

Mas nem tudo são flores na vida do centroavante de 40 anos. Marcado pelas diversas brigas que enfrentou, sendo constantemente expulso, mesmo nos jogos mais decisivos, ele não se acha um cara ‘folgado’. “Folgado jamais. Se fosse assim, teria tido problema de relacionamento nos times em que passei e isso jamais aconteceu. Mas não levo desaforo para casa”, revela França, com um ar decidido, como quem entraria numa briga no minuto seguinte, caso necessário.

Lesão e a derrocada na carreira

O futebol amador passou por uma mudança: o pagamento de jogadores. Se no passado os craques jogavam por amor à camisa, hoje em dia o que vale é o dinheiro. Isso gerou e ainda gera um debate muito intenso na várzea sobre a verdadeira essência do futebol amador.

Beneficiado por esta mudança, França é firme no seu posicionamento sobre pagamento. “Se o time tem condições, tem que pagar. Porque este dinheiro ajuda demais os jogadores, principalmente para quem tem esposa, filhos, uma casa para sustentar. Não se pode diferenciar o pagamento, o valor tem que ser igual para todo mundo”, afirma o camisa 9.

Foto: Lucas Ribeiro/FCS

E aqueles que vivem apenas da várzea? “Tem que ter consciência de que a bola um dia acaba. Estes jogadores que vivem da várzea hoje, precisam ter disciplina para ajeitar a vida de uma maneira que ele consiga se sustentar depois que parar. Além disso, este cara precisa cuidar bastante da forma física, para poder atuar bem em todos os compromissos firmados”, enfatiza França.

Uma lesão na coluna (Hérnia de disco), quase interrompeu a carreira de França na várzea. “A dor nas costas era insuportável. Eu ia no massagista e não melhorava. Resolvi ir no médico e a ressonância mostrou a hérnia. Fiquei três meses de cama. Mal conseguia levantar para ir ao banheiro. Tomava morfina de madrugada para conseguir dormir. Engordei, cheguei a pesar 100kg”, lamenta.

Tratamento e a tentativa de dar a ‘volta por cima’

Já são dois anos desde a descoberta da lesão. França perdeu os quilos que engordou e hoje já está quase 100% fisicamente. Faz trabalhos diários intensivos, em algumas ocasiões em até três períodos. “De manhã vou para a academia e faço o treino aeróbico. De tarde eu faço a musculação e, de noite, faço o treino funcional. Todos específicos para tentar diminuir o desequilíbrio de força nas duas pernas, que a hérnia de disco provocou. Hoje, a minha perna direita é cerca de 30% menos potente que a esquerda”, conta o camisa 9, do lado aparelho para fortalecimento das pernas.

Foto: Lucas Ribeiro/FCS

 

 

 

Facebooktwitterredditpinterestlinkedinmailby feather