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Mesmo com a recessão econômica, os ‘Mecenas’ não abandonam a várzea

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Nem o grave cenário político e econômico foram capazes de afastar estes empresários das beiras dos campos de várzea

Por Lucas Ribeiro

2016, o Brasil acaba de conduzir o processo de Impeachment da (ex)Presidente Dilma Rouseff. O país mergulha numa crise política, acompanhado da recessão econômica. O futuro não parece nada promissor e o desemprego só aumenta.

Neste cenário caótico, com todo mundo cortando despesas de todos os lados, um pequeno grupo de empresários, dedicados ao futebol de várzea da cidade de São Paulo ruma em um caminho contrário do restante da população: eles mantêm o alto investimento com os seus times amadores.

Pegamos apenas três personagens deste seleto grupo, todos atuam na zona sul de São Paulo. Sergio Silva, Denildo Silva e João Carlos Camisa Nova  Junior são os três ‘mecenas’, que mantém na ativa as equipes Pioneer, da Vila Guacuri; Pão Caseiro, do Ipiranga e; Brasília, do Jardim São Luís.

Mesmo sendo de bairros distintos, os três possuem uma característica em comum: todos atuam no ramo alimentício. Sergio é proprietário do Bibi Gastronomia, um restaurante no bairro do Itaim Bibi, na zona sul. Já Denildo e Junior, são donos de padaria (e não, não torcem para a Portuguesa). Denildo tem a Pão Caseiro (que dá nome ao time), que fica ao lado do metrô Praça da Árvore, enquanto Camisa Nova tem a Rainha do Bairro, lá no Jardim São Luís.

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Nome: Denildo Silva Time: Pão Caseiro F.C Bairro: Ipiranga Função: Presidente (desde 2012) Títulos recentes: Campeão da Copa Nove de Julho 2016 e Campeão da Copa Anhanguera 2015

Era uma vez…

Mas quem  pensa que eles sempre investiram alto nas suas equipes, estão enganados. Todos eles começaram no futebol sem pagar jogador, arcando apenas com as despesas convencionais do time. “Era pagar o ônibus para levar a torcida e depois do jogo, pagar uma cerveja e um churrasco na sede. Com os jogadores, tinha apenas o custo com a água e lavagem de uniforme, nada além disso”, diz Sérgio.

“O Brasília sempre foi um time muito conhecido na região, mas apenas isto. Quando assumi o cargo de Presidente, deixado pelo meu pai (em 2015), quis elevar o patamar do time: queríamos ser conhecidos em toda a cidade. E, para isto, tivemos que assumir um gasto, já que hoje é praticamente impossível ter um time sem pagar jogadores e, digo mais, dos jogadores serem do seu bairro ou região. Não, hoje tem que garimpar jogadores de todas as partes da Grande São Paulo”, conta Junior.

Quem trilhou o mesmo caminho foi Denildo: “O Pão Caseiro tem apenas quatro anos de existência. Nos dois primeiros anos, era um time de amigos. Ninguém recebia nada para jogar e o Pão Caseiro era puramente lazer. Depois destes dois anos, eu queria ir além, queria fazer parte da “elite” da várzea. Foi quando eu decidi assumir o investimento para levar o Pão Caseiro para este patamar e deu certo. Conquistamos no ano passado a Copa Anhanguera e, neste ano, conquistamos a Copa Nove de Julho. Dois dos principais torneios da cidade. Isto fez com que o Pão Caseiro ficasse conhecido em toda a cidade”.

Copa Kaiser, o ‘começo’ do Pioneer F.C

Quando o Pioneer conheceu a Copa Kaiser, ele entendeu porque as equipes da cidade já gastavam tanto dinheiro para montar as suas equipes. “Era o principal campeonato da cidade. Não temos nada parecido hoje. E, se quiséssemos almejar alguma coisa dentro da competição, precisávamos entrar no modelo de negócio”, conta Sérgio.

Nome: Sérgio Silva Time: Pioneer F.C Bairro: Vila Guacuri Função: Presidente (desde 1996) Títulos Recentes: Copa Capela do Socorro 2015; Copa Kaiser Brasil 2010; Copa Kaiser São Paulo 2010

 

O Pioneer então montou uma parceria com o Água Santa, o Rei de Diadema (hoje clube profissional, que vai disputar a Séria A-2 do Campeonato Paulista em 2017), que acabaria culminando no título invicto da Copa Kaiser 2010, além da Copa Kaiser Brasil no mesmo ano. “Era uma loucura. Jogávamos de manhã em Diadema e vínhamos correndo para São Paulo para 11h30 ou 13h jogar a Kaiser. O time chegava cansado, mas mesmo assim, conseguia fazer os resultados”, conta Sérgio.

Desde então, o Pioneer mantém o seu investimento.  Passou a fazer de modo independente em 2012, quando o Água Santa largou a várzea e foi se tornar profissional.

Investimento ou prejuízo?

Depende. Para Junior, todo o dinheiro gasto com o Brasília é um investimento. “Você patrocinar um time do seu bairro é uma grande oportunidade de divulgar os comércios da região, que toparem estampar as marcas na camisa. Porque você consegue mobilizar e envolver a sociedade local, que vai até o campo ver o seu time do coração. Se você consegue satisfazê-lo neste aspecto, ele vai devolver consumindo nestes comércios que ajudam o time. É uma roda, um ciclo”, conta o Presidente do Brasília.

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Nome: João Carlos Camisa Nova Junior Time: Brasília F.C Bairro: Jardim São Luís Função: Presidente (desde 2015) Resultados Recentes: Vice campeão da Copa da Paz 2016; Vice Campeão da Copa Leões 2016

Mas, para outros, é um prejuízo. “Investimento traz retorno financeiro. Lucro. O Pioneer não dá lucro, por isso que eu chamo de prejuízo e não de investimento”, conta Sérgio, aos risos.

Mas então, por que investir?                    

“Satisfação”, “Satisfação”, “Satisfação”. Essa foi a justificativa que os três deram para não parar com o que fazem na várzea. “É o que mais gosto de fazer. É a alegria do meu final de semana, não consigo ficar sem”, responde Denildo.

“O Pioneer chegou num patamar que não tem como parar. Se parar, vai desconstruir toda a reputação que construiu e não queremos isso. Se não podemos aumentar o investimento que fazemos, precisamos pelo menos manter o que já vem sendo feito”, destaca Sérgio.

Doente pelo Corinthians, frequentador assíduo das arquibancadas do Pacaembu, Junior trocou a sua paixão. “Eu costumava ser um corinthiano doente. Isso mudou. Hoje, quase não ligo para o futebol profissional, meu foco é o Brasília. Se não tiver pelo menos dois jogos do Brasília, não sei o que fazer com o meu final de semana”, conta Júnior.

Crise política, crise financeira, futuro nebuloso…

Nem mesmo o cenário caótico do Brasil e uma perspectiva pessimista para o futuro é capaz de tirar o entusiasmo do trio. “É claro que a crise dificultou manter o investimento. Aliás, a crise fez com que eu tirasse um pouco o pé. Jogadores que eu ajudei no passado, estão me ajudando agora, então o gasto diminuiu consideravelmente”, conta Denildo.

Diminuição de gastos também faz parte do vocabulário do Pioneer. Segundo o Presidente Sérgio, ele nunca teve que desembolsar tão pouco para manter a equipe. “Desde 2014, o Pioneer vem se organizando para se tornar auto sustentável. Passamos, então, a colocar em prática algumas ideias que tivemos e, felizmente, tivemos resultados. A loja itinerante do Pioneer alavancou a venda de camisas. Trabalhar a marca nas redes sociais atraíram patrocinadores, que nos ajudam a manter a equipe. A Super Copa Pioneer, embora não dê lucro, em termos de organização, foi fundamental para difundir o nosso nome pela cidade. Com tudo isso, junto com a tática de impor um limite para os gastos com jogadores, fizeram com que conseguíssemos diminuir em 40% os nossos gastos”, revela Sérgio.

Sustentabilidade é a receita para o futuro…

Para o Pioneer, é a visão do Presidente Sérgio. “Se continuarmos neste ritmo, de boa exposição, trabalhando duro para isto, acredito que em até dois anos, o Pioneer seja auto sustentável. Será o meu legado para o time, além dos benefícios da Super Copa Pioneer [reforma dos CDC Doroteia e Santa Amélia], além da subsede do Pioneer. Em dois anos, queremos ter patrocinadores o suficiente para bancar o Pioneer e eu poder deixar caminhar com as próprias pernas, sem precisar ficar dependente de mim”, enfatiza Sergio.

Sustentável ou não, parece que o futebol de várzea vai seguir a todo vapor. Só deverá deixar de ter investimento, se a crise  econômica no Brasil apertar muito. Porque caso contrário, sempre haverão os Sérgios, Denildos e Juniors para manter vivo (e com qualidade) o lazer, a alegria e a paixão das comunidades periféricas: o futebol de várzea.

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